BC DEVE MANTER SELIC EM 15% COM TOM DURO E AJUSTAR COMUNICADO- BLOOMBERG 4/11

* Trechos sobre retomada de ciclo e período prolongado em foco
* Projeção para horizonte relevante é um dos principais pontos

Por Josue Leonel e Felipe Saturnino

(Bloomberg) -- Com a expectativa unânime de que a Selic permanecerá em 15% ao
ano pela quarta reunião seguida do Copom, o mercado monitora as projeções de
inflação do Banco Central e eventuais ajustes no comunicado que acompanha a
decisão. Segundo analistas, o BC pode retirar menção à chance de aperto
monetário à frente, mas mantendo o sinal de que taxa deve seguir contracionista
por “período bastante prolongado”. A expectativa é de que o documento seguirá
com tom duro, sem abrir a porta para o início dos cortes ainda neste ano.

Os economistas esperam que o BC reduza as projeções de inflação, após as
leituras do IPCA abaixo do esperado e da queda das estimativas na
pesquisa Focus. Os dados de atividade mais fracos e o recuo dos preços das
commodities também devem ajudar a autoridade monetária a cortar as suas
projeções para o horizonte da meta.

Parte dos economistas espera a remoção do comentário de que o Copom “não
hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado”, visto
nos comunicados anteriores. Os analistas se mostram mais cautelosos, porém,
sobre o trecho do documento em que o BC prescreve política monetária em “patamar
significativamente contracionista por período bastante prolongado”, que poderia
ser mantido.

Caso as projeções do Copom para o horizonte mais longo não sofram alterações, a
leitura do mercado seria de uma orientação conservadora do colegiado, sugerindo
que cortes de juros estão distantes. Atualmente, os operadores embutem o início
de uma flexibilização monetária entre janeiro e março, segundo a precificação
extraída da curva de juros.

Já a queda das projeções para um número menor, mais próximo da meta perseguida
de 3%, poderia encorajar apostas em um alívio monetário mais rápido. O JPMorgan
estima que essa projeção seja reduzida de 3,4% para 3,2%.

Leia mais: Brasília em Off: As reclamações para Lula sobre juros altos

A persistência do discurso duro do Banco Central, que tem destacado o
crescimento da economia e o fato de o mercado de trabalho estar aquecido, tem
feito o mercado evitar apostas em cortes neste ano. A inflação fora da meta
demanda que o Banco Central permaneça restritivo por mais tempo, disse o
presidente do BC, Gabriel Galípolo, em 23 de outubro.

Veja os comentários dos analistas:

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú

* Copom deve até mencionar alguma melhora na inflação corrente, mas não mudará
a sua sinalização de manutenção de juro por período bastante prolongado
diante da desancoragem das expectativas, da resiliência do mercado de
trabalho e das projeções de inflação acima da meta
* Melhora de expectativas, mesmo que expressiva, ainda deixa as projeções de
mercado consistentemente acima da meta; reconhecer esse movimento de melhora,
nesse momento, pode ser contraproducente
* Projeções de inflação do comitê devem cair para 3,3% no horizonte relevante
do 2º trimestre de 2027 (ante 3,4% no 1T27 no comunicado anterior), caso não
considerado o impacto do imposto de renda sobre o hiato do produto, ou 3,4%
considerando tal impacto

Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco

* Copom deve manter taxa de juros e também o tom geral do comunicado, mas
esperamos algum reconhecimento da melhora das expectativas de inflação e da
própria inflação corrente, mantendo a sinalização de juros elevados por um
período prolongado
* Trechos sobre possibilidade de novo ajuste e política restritiva por período
bastante prolongado devem ser mantidos

Cassiana Fernandez, economista-chefe do JPMorgan

* Uma condição necessária, mas não suficiente, para cortes ainda este ano é uma
redução mais substancial no cenário do BC para o horizonte relevante, agora
definido como o segundo trimestre de 2027; esperamos que essa projeção seja
reduzida de 3,4% para 3,2%, mas BC tem nos surpreendido com previsões mais
altas nas últimas reuniões
* Chances de uma desancoragem prolongada das expectativas de inflação
diminuíram, e a probabilidade de uma desvalorização persistente do real
devido a políticas domésticas e externas é menor, especialmente com a melhora
nas relações entre EUA e Brasil
* Se BC não reconhecer esse progresso, isso sinalizará que o BC dificilmente
cortará juros na reunião seguinte

Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs

* Projeções de inflação do BC devem ser favorecidas pela queda do preço do
petróleo e das expectativas inflacionárias
* Horizonte relevante deve mudar para segundo trimestre de 2027 e projeção para
este prazo deve recuar para 3,3%

Iana Ferrão, do BTG Pactual Macro Research

* Comunicado deve ter poucas alterações
* Leitura continuará sendo de certa moderação do crescimento, com mercado de
trabalho ainda mostrando dinamismo
* Projeção de inflação deve ficar em 3,3% no cenário de referência para o 2º
trimestre de 2027, horizonte relevante
* É possível que o BC retire do comunicado o trecho que afirma que o Comitê não
hesitará em retomar o ciclo de ajuste – preservando, contudo, o tom hawkish

Caio Megale, economista-chefe da XP

* Comitê tende a reforçar a necessidade de manutenção da taxa básica no nível
atual por um “período bastante prolongado”
* Porém, esperamos que o comunicado reduza a ênfase na possibilidade de
retomada do ciclo de alta de juros

Marcela Rocha, economista-chefe para América Latina da Principal Asset
Management

* Copom deve manter tom duro e evitar ênfase de melhora na inflação para não
abrir portas para expectativa de corte da taxa de juros
* “Eu acho que se BC colocasse uma ênfase de que as expectativas recuaram,
poderia ser lido como já suficiente”

Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1

* Caso o Copom contemple em seus planos a possibilidade de iniciar um ciclo de
corte de juros a partir de janeiro, seria recomendável que começasse a
ajustar a comunicação na reunião desta semana
* Uma forma de implementar este ajuste seria retirar o alerta sobre a
possibilidade de voltar a elevar a Taxa Selic, mesmo porque este cenário
parece muito improvável à luz de hoje
* Outra possibilidade seria suavizar a referência temporal, substituindo a
expressão “bastante prolongado” por algo como suficientemente prolongado

Flavio Serrano, economista do Banco BMG

* “Não acho que virá uma possível sinalização sobre o começo do corte”
* Há possibilidade de BC retirar menção à possibilidade de retomar alta dos
juros, mas trecho sobre juro alto bastante prolongado deve ser mantido

Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank

* Trecho sobre possibilidade de retomar alta foi relevante num primeiro
momento, mas “não veria problema em retirá-lo no contexto atual”
* Comunicação deve vir mais na linha de colocar no radar um possível início do
ciclo de corte de juros em torno de março

Júlio Barros, economista do Daycoval

* Trecho sobre retomar o ciclo de alta de juros pode ser retirado, deixando as
portas abertas para o início do ciclo de corte de juros no início do próximo
ano
* Caso contrário, se esse texto for mantido, a probabilidade do início do ciclo
de cortes ser mais para frente deve crescer