Entrevista - Haddad: Há ajuste a fazer, mas o fiscal não vai explodir, como não explodiu- Uol 6/11

Daniela Lima

Colunista do UOL

Cerca de duas horas depois de o Senado aprovar em definitivo a principal promessa de campanha do presidente Lula, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, um Fernando Haddad risonho e visivelmente aliviado atendeu a coluna para uma conversa rápida.

O ministro da Fazenda fez um balanço da tramitação da proposta, que levou um ano para ser gestada pela pasta e mais nove meses para ser avalizada pelo Congresso. "Quem acreditaria que esse projeto seria aprovado de forma unânime nas duas Casas, na Câmara e no Senado? Ninguém. Mas está aí. A política pode muito mais do que as pessoas imaginam. A boa política."

Haddad reafirmou que Orçamento de 2026 virá com previsão de superávit e rebateu as previsões de que a situação fiscal do país é uma panela de pressão prestes a explodir em 2027. "Não vai explodir, assim como não explodiu quando fizemos a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da transição. É claro que há ajustes a fazer, e eles serão feitos. As pessoas falam: 'Olha, nessa trajetória vai dar de cara com o muro'. Mas tem um piloto ali. Ele vai tangenciando. O que estamos fazendo é consistente."

Veja os principais trechos da entrevista:

UOL: O processo de construção da aprovação da isenção do Imposto de Renda foi longo. Qual foi o momento mais difícil?

Haddad: O começo foi mais difícil do que o fim, sabia? Ninguém acreditava que pudéssemos cumprir a promessa de campanha, dando a isenção a quem ganha até R$ 5.000, com um projeto neutro do ponto de vista fiscal. Foi uma engenharia que levou um ano para se revelar.

Quando o projeto fechou, nós mesmos ficamos muito entusiasmados, quando formatamos e enviamos para a Câmara. E aí a parte mais difícil foi convencer as pessoas de que a conta fechava. Quando viram que, sim, era possível, compraram a ideia. O Congresso honrou o compromisso de se fazer a reforma tanto do ponto de vista do consumo (mudança nas regras tributárias) como no da renda com neutralidade fiscal, sem fazer dívida.

E uma coisa muito relevante, e que a maioria das pesquisas nos mostraram, é que quando as pessoas perceberam que a proposta não era dar com uma mão e tirar com a outra, que não íamos fazer a isenção aumentando dívida, tirando dinheiro da saúde ou da educação, mas cobrando de quem ganha muito e paga menos imposto, quando as pessoas entenderam que era uma proposta de justiça social, ela ganhou muita tração.

Mas teve o desafio de fazer com que a neutralidade fiscal fosse mantida no Congresso...

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Já era o pressuposto. Tinha de ser neutro. Nós argumentamos que, como não poderia ser uma proposta para fazer ajuste fiscal, já que ela tem uma perspectiva de longo prazo, tínhamos que garantir a neutralidade tanto no consumo como na renda. E isso eu acho que foi o grande segredo do sucesso. A turma topou o argumento e fechou questão: só aprova se for neutro.

E a agenda para 2026?

Estamos nesse momento fechando o Orçamento, com a meta da LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias], que já é de superávit. E, assim, preciso me repetir, se não cai no vazio: Nós vamos entregar a menor inflação acumulada em quatro anos, o menor desemprego da história, o melhor crescimento em quatro anos desde 2010, o menor índice de desigualdade [Gini] desde o início da série histórica e o melhor resultado primário desde 2015. A Bolsa vem batendo recorde e o dólar está caindo porque estão vendo que o que estamos entregando e construindo é consistente.

Mas segue o temor de descontrole na área fiscal, na trajetória da dívida.

O fiscal não vai explodir em 2027, como não explodiu, por exemplo, quando fizemos a PEC da Transição. Nós herdamos muitas dívidas da gestão anterior, regras frágeis para benefícios, como o BPC, precatórios... Já falavam que ia explodir e não explodiu.

É como se as pessoas dissessem: 'Olha, se continuar fazendo essa trajetória vai bater no muro'. Mas não é assim. Tem um piloto ali. Estamos numa pista de Fórmula 1, vamos fazendo as curvas, tangenciando. Quem quer que seja o presidente em 2027 vai herdar um país muito melhor do que o que o Lula herdou. Claro que tem providências a tomar, como tomamos até aqui.

Veja, quem apostaria que teríamos a isenção do IR aprovada nas duas Casas, Câmara e Senado, por unanimidade? Ninguém. A política pode muito mais do que as pessoas imaginam... a boa política. Mesmo com um Congresso que não tem a cara do governo Lula, foi possível construir.

E os juros?

Ah... desculpa. Hoje eu vou falar só de Imposto de Renda (risos).

https://noticias.uol.com.br/colunas/daniela-lima/2025/11/06/haddad-ha-ajuste-a-fazer-mas-o-fiscal-nao-vai-explodir-como-nao-explodiu.htm